Plano do livro “As relações entre Brasil e Portugal: a parceria multissecular”, de Amado Cervo

O capítulo 1 terá por objeto a contribuição portuguesa no lançamento de raízes que irão conformar a sociedade brasileira. Como criação portuguesa, nos termos de Gilberto Freire, o Brasil herdou de Portugal: a) os traços originais de sua cultura universalista e tolerante, feita de convivência de diferenças étnicas e culturais entre raças e nações; b) boa parte de seu quadro institucional e de seu ordenamento jurídico-político; c) a economia primário-exportadora responsável pelo atraso histórico de quinhentos anos.

Não serão analisados nesse capítulo a organização escravista e o regime colonial, fenômenos superados em longínquo passado. A ênfase será posta sobre a identificação de tendências de longo prazo, incrustadas no tecido social, no quadro institucional e na organização econômica.

O capítulo 2 focaliza o período de transição, entre a Independência e a revolução de 1930, durante o qual as relações entre Brasil e Portugal prolongam conexões estreitas, como a imigração portuguesa para o Brasil com seu impacto cultural, e diplomáticas, como a mediação de Portugal nos atritos entre Brasil e Inglaterra. Período em que, por outro lado, as relações tomam distância em razão da construção do Estado Nacional e da supressão progressiva, tanto da influência política quanto do peso de Portugal para a economia agroexportadora brasileira. O tráfico de escravos, apesar do envolvimento de navios negreiros portugueses, somente será considerado indiretamente, visto provocar forte atrito com o governo inglês sobre o qual a diplomacia portuguesa não influi.

O capítulo 3 focaliza um período de carência substantiva nas relações bilaterais. Voltado para seu colonialismo tardio, Portugal apenas arranca do Brasil a solidariedade em fóruns multilaterais por razões sentimentais, porém passa distante dos interesses da política exterior brasileira que persegue o desenvolvimento nacional. Declínio português e desenvolvimento do Brasil afastam, por um lado, o aproveitamento e não agem, por outro, na indução de oportunidades. A parceria possível é esterilizada, frívola no mínimo. Nada de comparável ao eixo que se aprofunda e se consolida nas relações entre Estados Unidos e Inglaterra, apesar de as circunstâncias e os fatores condicionantes das relações internacionais permitirem e aconselharem tal evolução. Do lado das relações entre Brasil e Portugal, desperdiça-se uma oportunidade histórica. Por que razão? Este será um desafio explicativo para a análise das relações bilaterais.

O capítulo 4, o de maior extensão, focaliza o retorno de Portugal ao Brasil na passagem do milênio. São fatores determinantes da nova fase o fim do colonialismo tardio, a entrada de Portugal na União Européia, a modernização portuguesa e a visão de suas lideranças políticas acerca da globalização. O meio empresarial português elege o Brasil como destino privilegiado de capitais e empreendimentos. A convergência cultural exerce, nesse sentido, papel determinante, segundo análises recentes. A abertura do sistema produtivo e de serviços encaminhada durante o ciclo neoliberal brasileiro dos anos 1990 criou, por outro lado, condições favoráveis à penetração dos empreendimentos portugueses, os quais, ao lado dos espanhóis, ascendem ao todo do movimento em direção ao Brasil. No século XXI, visto dar-se continuidade a essa abertura e visto estabelecer-se a estratégia brasileira de país globalista interdependente , Portugal mantém sua aproximação econômica, apesar da crise financeira que o afeta em 2010.

Convém examinar, por outro lado, a tímida reação das lideranças empresariais brasileiras à oferta de Portugal no sentido de converter-se em porta de entrada de empreendimentos brasileiros com alcance sobre o mercado da União Européia. Como convém, ademais, examinar o peso da formação de blocos, Mercosul e União Européia, sobre o controle e a condução da parceria entre Portugal e Brasil.

Plano da obra

  • Capítulo 1 – O Brasil que o português criou: raízes culturais, institucionais e econômicas
  • Capítulo 2 – A parceria em declínio: da Independência a 1945
  • Capítulo 3 – Sentimentalismo sem ação: a segunda metade do século XX
  • Capítulo 4 – Empreendimentos portugueses no Brasil: penetração no mundo globalizado