Plano do livro “Crescimento Econômico e Relações Internacionais”, de Eiiti Sato

O argumento básico deste livro tem seu foco na idéia de que as instituições e as práticas econômicas refletem padrões estruturais da economia que se transformam ao longo do tempo e que, em certos momentos, há movimentos de ajustamento mais profundos que aparecem na forma de grande turbulência e crise generalizada. Muitos analistas denominam esse tipo de ajustamento na economia como crise sistêmica uma vez que abalam todas as instituições e práticas no sistema de relações econômicas tanto no âmbito internacional quanto na esfera das economias nacionais.

Pode-se dizer que ocorre na economia algo semelhante ao que acontece na natureza com os terremotos, que se originam da acomodação de placas tectônicas, muitas vezes nas camadas mais profundas da Terra, e que se movimentam gerando fortes pressões sobre a superfície da calota terrestre. Assim, analogamente, as crises, como os terremotos, representam momentos de ruptura nos quais as forças de mudança se acomodam formando uma nova configuração na superfície: instituições e práticas econômicas deixam de existir ou se transformam, oportunidades de negócios assumem novas feições e mudanças na importância relativa das economias tornam-se mais visíveis.

Por outro lado, esse argumento se desdobra na hipótese de que o desencadeamento das crises está diretamente associado à incapacidade da ordem econômica vigente de prover crescimento. Quando as práticas econômicas correntes se revelam incapazes de promover a geração de mais empregos e de quantidades crescentes de produto e de riqueza de uma forma geral, as pressões sobre os regimes que se estendem pelos campos monetário, comercial e financeiro, tendem a tornar-se insustentáveis. As crises, desse modo, refletem momentos em que as instituições que compõem a ordem econômica vigente não oferecem mais as condições para acomodar as demandas por crescimento.

De antemão, cabe dizer que as hipóteses aqui exploradas não têm a pretensão de reivindicar originalidade pois, em larga medida, apenas retoma e discute sob outros ângulos a conhecida diferença entre os ciclos econômicos de curta duração e os longos ciclos tecnológicos de Schumpeter.[1] O entendimento é que os efeitos negativos derivados da sucessão dos ciclos econômicos de curta duração podem ser combatidos com medidas de política econômica anti-cíclica, que procuram restaurar o equilíbrio e a estabilidade da atividade econômica por meio de estímulos e desestímulos ao consumo e aos investimentos. Os ciclos econômicos de longo prazo, no entanto, derivam de mudanças estruturais fortemente associadas a transformações nos padrões da tecnologia corrente. Mudanças dessa ordem afetam a própria natureza da atividade econômica e, em conseqüência, atuam sobre os fundamentos essenciais da prática econômica e modificam os padrões que orientam a geração e a distribuição dos negócios e da riqueza pelas sociedades.

Ao longo dos últimos cem anos é possível identificar três momentos em que, caracteristicamente, a economia internacional viveu crises associadas a mudanças de ciclos econômicos que trouxeram consigo transformações estruturais. O colapso econômico da década de 1930 foi o primeiro desses momentos no qual se evidenciou o esgotamento da ordem liberal trazida do século XIX. O segundo momento, já no pós-guerra, foi a crise associada aos choques do petróleo e à crise do endividamento dos países em desenvolvimento, que revelava o fim de um ciclo de crescimento baseado no financiamento de obras e atividades econômicas por meio de agências oficiais de fomento. Finalmente, a terceira crise refere-se ao momento mais recente, desencadeada em 2008, e pode ser identificada como a crise da economia da globalização.

Após cada crise, uma renovada economia emerge com novos padrões e novas instituições que orientam as práticas econômicas e as formas de geração de riqueza. Diante do desencadeamento das crises a primeira reação das autoridades econômicas é a de buscar freneticamente remédios convencionais para os males da crise tais como a abertura de linhas de crédito, alteração na estrutura dos impostos, busca por empréstimos externos ou mesmo emissão de moedas. Num ambiente de crise sistêmica, no entanto, tais medidas se revelam insuficientes. Podem amenizar alguns dos efeitos de curto prazo, mas a crise somente poderá ser efetivamente superada por meio de acomodações estruturais envolvendo novas formas de conduzir os negócios, novos atores e uma nova relação entre as forças de mercado e o papel do Estado. Esse fenômeno ocorreu na esteira do colapso econômico da década de 1930, ocorreu na crise do petróleo e do endividamento dos países em desenvolvimento e também vem ocorrendo a partir das turbulências desencadeadas na economia internacional em 2008. Em cada um desses momentos, muitos dos elementos de uma nova economia foram gerados ou apareceram de modo mais visível. A crise da década de 1930 deixou claro que a velha economia da ordem liberal do século XIX tornara-se inviável, da mesma forma, a crise do petróleo associada ao endividamento das nações do terceiro mundo evidenciou a impossibilidade de persistir na promoção de estratégias de crescimento econômico baseado no financiamento e na ação do Estado. Na crise mais recente alguns desdobramentos estão ainda em curso, mas são evidentes os sinais de que os mercados financeiros completamente livres podem tornar-se instáveis produzindo um ambiente de insegurança que pode comprometer os fluxos de investimentos e o próprio comércio. Tradicionais instituições financeiras dos Estados Unidos ainda lutam para recuperar-se contando para isso com a substancial ajuda do Tesouro Americano e grandes bancos europeus ainda se encontram diante de sérias dificuldades em razão de financiamentos internacionais concedidos a programas de desenvolvimento conduzidos em países da própria União Européia.

Crise e crescimento na ordem econômica internacional

Como já mencionado, a capacidade de promover crescimento econômico é essencial para a estabilidade da ordem econômica internacional. No entanto, paradoxalmente, a demanda por crescimento econômico é, também, um fator que pressiona o desencadeamento de processos de mudança nas práticas, nas instituições e na importância relativa dos atores nas relações internacionais. A história mostra que os padrões predominantes no meio internacional tem seguido uma trajetória de contínuas mudanças e transformações onde a questão do crescimento na produção e oferta de bens e serviços tem desempenhado um papel central. Nações se tornam poderosas ou declinam enquanto os fluxos de bens, de serviços, de recursos e mesmo de pessoas mudam de direção e de características favorecendo alguns e tornando obsoletas instituições e práticas consolidadas por longo tempo. Dessa forma, ao se discutir crises e mudanças na esfera da economia internacional, o objetivo é também discutir e procurar compreender as muitas implicações da busca pelo crescimento econômico para as relações internacionais.

Com efeito, desde a formação do que se convencionou chamar de economia moderna o crescimento econômico tem ocupado uma posição central entre as preocupações dos seus principais estudiosos. Não foi acidental que Adam Smith intitulou sua obra de Uma Indagação sobre as Origens e a Natureza da Riqueza das Nações. Malthus também via na questão do crescimento um elemento crucial que, na sua visão, aparecia na forma de um trágico desequilíbrio entre a limitada capacidade de aumentar a produção de alimentos em relação ao aumento das populações. Mesmo autores mais voltados para os temas típicos da microeconomia também vêem, implícita ou explicitamente, o funcionamento da economia em termos de crescimento da produção e expansão dos mercados. Críticos do sistema liberal-capitalista, por sua vez, dirigem suas críticas ao capitalismo baseados fortemente na hipótese de um inevitável colapso do capitalismo a partir do esgotamento das possibilidades de crescimento das economias sob esse sistema.

Num sentido mais amplo, pode-se dizer que há uma verdadeira conspiração da própria natureza com vistas ao crescimento. O aumento da população por si só já seria razão suficiente para justificar a necessidade de satisfazer a demanda por uma quantidade crescente por bens e serviços. Os padrões típicos da modernidade, identificados de modo genérico como “qualidade de vida”, estão cada vez mais disseminados entre as sociedades impulsionados por inúmeras razões que levam os indivíduos e grupos a pressionarem a ordem econômica no sentido de fazer com que a produção de bens e serviços avance para níveis muito além da simples satisfação das necessidades geradas pelo crescimento vegetativo das populações. Em toda parte, após a satisfação das necessidades básicas de sobrevivência, outras necessidades surgem no sentido de tornar a vida mais segura, mais confortável e mais interessante.[2]

O crescimento econômico também está inexoravelmente associado à obtenção dos recursos de poder tanto no nível das relações entre indivíduos quanto no plano coletivo, nas relações entre grupos e entre sociedades organizadas em Estados. O próprio Estado depende, sob muitas formas, do crescimento econômico para o cumprimento de seus fins. Com efeito, os requisitos da segurança e as demandas pelos mais variados serviços públicos só podem ser adequadamente atendidos por meio de uma crescente soma de recursos que, em última instância, depende do crescimento da economia como um todo. Isso explica porque, politicamente, o sucesso de partidos políticos e de programas de governo depende tão fortemente do bom desempenho econômico, isto é, do crescimento. Políticas com o objetivo de aumentar a oferta de emprego são, na verdade, políticas de aumento da atividade econômica, enquanto, por outro lado, a realização de obras públicas e a melhoria na oferta da extensa gama de serviços hoje oferecidos pelo Estado pressupõem maiores quantidades de recursos públicos, cujo atendimento depende diretamente do aumento da atividade econômica. Promessas feitas em campanhas eleitorais raramente não incluem incremento nos serviços públicos e a popularidade dos governos depende diretamente da existência de um ambiente de prosperidade onde as demandas por empregos e por maiores ganhos sejam razoavelmente atendidas.

Em resumo, as pressões pelo crescimento são generalizadas constituindo-se numa dimensão essencial da vida econômica de toda sociedade organizada, seja em razão de fontes objetivamente quantificáveis como o crescimento vegetativo das populações ou de fontes mais fluidas e subjetivas como os desejos de prosperidade, o acesso aos benefícios e confortos oferecidos pelos avanços da tecnologia ou mesmo a busca de aprimoramento de padrões educacionais e culturais. As demandas por crescimento quando não atendidas, dependendo dos níveis de insatisfação gerada, tendem a se transformar em forças desestabilizadoras das instituições políticas e sociais. Dessa forma, a menos que se viva dentro de uma comunidade religiosa cuja moral seja totalmente orientada para o abandono – ou superação, no entendimento de seus adeptos – da busca por melhorias nos padrões de usufruto de condições materiais, o crescimento econômico constitui-se num requisito de importância capital para a estabilidade da ordem social e política vigente. Na verdade, a ausência de crescimento ou, pior, a ocorrência de um processo recessivo continuado, significa que a ordem econômica vigente está em descompasso com as forças que levam ao crescimento e, de uma forma geral, que fazem mover os fatos econômicos em harmonia com as expectativas dos indivíduos e das sociedades.

Finalmente, tendo por base esses aspectos teóricos e históricos a respeito de crises e mudanças na ordem econômica internacional, a obra procura discutir as condições dentro das quais a economia brasileira vem se movendo e como se apresentam as perspectivas para o futuro próximo. O Brasil tem sido visto como um dos destaques entre os chamados países emergentes, todavia ainda não parece claro o nível de disposição e de adequação das condições materiais e das instituições econômicas e políticas brasileiras em relação às forças que deverão impulsionar o crescimento dentro do novo ciclo econômico que vai se conformando neste início do século XXI.


[1] A existência de “ciclos econômicos” passou a ser observada desde o século XIX (Overstone em 1857; Clément Juglar em 1862). No século XX os autores que mais se destacaram na reflexão sobre os ciclos econômicos foram Nicolai Kondratieff, Joseph Kitchin, Simon Kuznets e Joseph Shumpeter. Cada um desses estudiosos identificou diferentes períodos de duração para os ciclos bem como os fundamentos sobre os quais esses ciclos presumivelmente devem ocorrer. Para o presente trabalho será tomado como referência principalmente o entendimento oferecido por Joseph A. Schumpeter em razão de sua ênfase no fator tecnológico (A Teoria do Desenvolvimento Econômico. Nova Cultural, São Paulo, 1985).

[2] Na década de 1950 a expressão revolução das expectativas crescentes foi popularizada nos Estados Unidos a partir das discussões envolvendo as iniciativas de ajuda ao desenvolvimento que se tornavam elemento central na política externa daquele país. Essa expressão designava as esperanças dos países pobres no sentido de terem um futuro melhor que lhes permitisse acesso aos benefícios da modernidade. Chegou-se a elaborar uma verdadeira “teoria das expectativas crescentes” que associava a disseminação dessas expectativas à estabilidade social. (Ver Chandra, S & Foster, A. W. 2005)