Plano do livro “A Ásia nas Relações Internacionais: o sistema regional, o sistema mundial e a transformação global”, de Paulo Fagundes Visentini

A Ásia oriental e meridional, do Japão ao Paquistão, abriga mais da metade da população mundial e várias das mais sólidas e antigas civilizações. Durante cinco séculos os impérios continentais da região foram eclipsados pelos impérios marítimos do Ocidente. Mas no século XX iniciaram um processo de transformações múltiplas, que está produzindo seu desenvolvimento econômico-social e alterando não apenas sua posição dentro do sistema mundial, mas sua própria estrutura e essência.

Durante os últimos cem anos a Ásia foi marcada por grandes acontecimentos internacionais como a Guerra do Pacífico, Revolução Chinesa e as Guerras da Coréia, da Indochina e do subcontinente indiano. Importantes alterações estratégicas, de alcance regional e mundial também ocorreram, como a cisão sino-soviética e a aliança sino-americana, em meio à constituição de potências nucleares. Um amplo e diversificado processo de modernização econômica e política provocou a ascensão de potências regionais e mundiais, no quadro de recuperação das nações asiáticas e da afirmação de princípios de soberania, característicos do sistema westfaliano. 

A Ásia Oriental e, em menor medida, meridional, têm constituído a região de maior dinamismo econômico no mundo há meio século, o que tem produzido uma nova configuração das relações de poder regionais e globais, com a ascendência de novos pólos de poder. Contudo, a importância deste fenômeno não tem sido apreendida em toda sua dimensão e complexidade. Esta região e seu processo de inserção internacional são comumente analisadas a partir de premissas inadequadas. A Ásia não constitui um “bloco”, e o Japão foi deixando de seu centro dinamizador, pois os fenômenos atualmente em curso na Ásia, embora se encontrem articulados ao conjunto das transformações globais, apresentam formas peculiares. Gradualmente a China foi emergindo como pólo articulador da região e a Ásia concentra vários núcleos de poder, que constituem as bases para um sistema mundial multipolar. Mais ainda, pode-se especular sobre a gradual formação de um amplo espaço eurasiano.

Na Ásia oriental e meridional há quatro Estados de grande porte em termos de extensão territorial, população e/ou tamanho do PIB: a China, a Índia, o Japão e a Indonésia, além de outros de dimensão média. Todavia, eles podem ser agrupados em duas matrizes civilizacionais, a chinesa (confuciana) e a indiana. O Japão pertence à primeira e a Indonésia é uma nação muçulmana (a maior do mundo em seguidores desta religião), malaia e, por seu passado budista, guarda vestígios societários da matriz indiana.

A civilização chinesa possui mais de quatro milênios de história com notável continuidade, com um Estado centralizado, de marcante continuidade histórica. Desde suas origens remotas o Estado chinês foi caracterizado pela ênfase na centralização político-administrativa, na homogeneidade e na continuidade. Em grande parte isto se deve à filosofia confuciana, um conjunto de normas de comportamento social. Cabe ressaltar que na China, e no conjunto da Ásia, a noção de indivíduo encontra-se amplamente subordinada à noção de coletivo.

Já  a civilização indiana era bem diferente. Enquanto os chineses eram etnicamente homogêneos (han), a Índia se caracteriza pela diversidade étnica, cultural e religiosa, decorrente de inúmeras invasões. A cada nova conquista/migração se estabelecia uma nova casta ou religião, que se sobrepunha às já existentes, criando hierarquias e complexas divisões de trabalho e papéis sociais. Desta forma, a Índia se caracterizou pelos particularismos e pela diversidade. Tudo isso contribuía para que a as forças de mudança fossem enfraquecidas. Os Impérios e Reinos Hindus, ao longo da história, não possuíam um centro geográfico e étnico único. Ao contrário da civilização chinesa, a indiana foi berço de diversas religiões, algumas se expandindo por amplas regiões, como foi o caso do budismo, que acabou se tornando uma religião predominantemente não indiana. Já o sudeste asiático recebeu tanto a influência chinesa (Vietnã) como indiana (Myanmar, Tailândia e Camboja), e mais tarde muçulmana (Indonésia e Malásia).

Após analisar os elementos civilizacionais e a dominação européia que impactam o presente como forças profundas, como dizia Renouvin, a obra descreve o processo de descolonização. Durante a Guerra Fria o continente esteve dividido e o Japão foi o centro do desenvolvimento econômico,  em aliança subordinada com os Estados Unidos. Mas nos anos 1970 ocorreu a derrota dos EUA no sudeste asiático, a aliança sino-americana (que permitiu a a Beijing ocupar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU) e o desenvolvimento dos Tigres Asiáticos. Na década seguinte a China lançou sua modernização e desenvolvimento e, no início dos anos 1990 a URSS desapareceu e a Guerra Fria foi encerrada.

Enquanto os “muros asiáticos” ruíam e a região restabelecia fluxos interrompidos, a China despontava com um crescimento irreversível e uma posição internacional ascendente e o Japão entrava num longo processo de estagnação. Na seqüência, a Índia também iniciava um ciclo de crescimento econômico, internacionalização e integração regional (a SAARC), além de reconhecimento de seustatus de potência nuclear.

Já  o sudeste asiático, através da ASEAN, lograva um bem sucedido processo de integração e desenvolvimento que reúne repúblicas e monarquias, democracias e regimes militares, modelos capitalistas e socialistas e Estados industrializados e menos desenvolvidos, grandes e minúsculos. No nordeste asiático, apesar das tensões calculadas e teatrais na península coreana e da estagnação do Japão, a reconstrução do espaço geopolítico prossegue. Aliás, inclusive no conjunto do continente, através da Organização de Cooperação de Xangai.

Os postulados westfalianos de soberania são matizados pelos conceitos asiáticos de hierarquia e estabilidade, numa visão sistêmico-diplomática de longo prazo. O capitalismo global impulsionado pela economia socialista de mercado chinesa conquista os mercados além-mar e adquire empresas e dívidas dos países Ocidentais. Mais ainda, na frenética busca por fontes de energia e matérias primas, os Cinco Princípios da Coexistência Pacífica estabelecem novos eixos de Cooperação Sul-Sul, como os da China e Índia com a África, alterando o equilíbrio mundial e conferindo substância a um sistema mundial multipolar em formação.

Para completar, com a crise da zona Euro e do dólar, os Estados Unidos buscam uma parceria com a China, conhecida como G-2, num dinamismo acelerado que faz com que obras respeitáveis envelheçam em poucos meses. Assim, esta obra busca descrever e analisar a evolução diplomática dos novos (ou renovados) Estados da Ásia Oriental e Meridional, explorando as tendências em curso e desvendando processos que temos dificuldade em compreender. E tenta desmistificar tanto o “milagre” asiático quanto o discurso etnocêntrico de novo “perigo amarelo”, em que os fracassos Ocidentais são atribuídos aos sucessos Orientais.